Escrevo só pra mim.
Pra mais ninguém.
Enquanto isso, a morte ronda o quarto dos fundos
E, diariamente, me traz uma surpresa ruim.
Me faz pedir perdão pelos crimes que não cometi
E pelas palavras amargas que ainda não disse.
E, assim, fujo de tudo e de todos,
Trancado num peito incapaz de sonhar.
E procuro um sorriso espontâneo pra afugentar o pensar.
Penso nas feridas da carne,
Que me tirariam a dor do desejo.
E penso na vida que tive
E no amor que me roubou o último suspiro;
Que se foi com o vento da manhã que não chegou.
Morro a cada momento,
'inda que eu acredite que mais não possa morrer.
Essa é a tortura que me imponho sem piedade.
E a música que toca no fundo
É o som das pessoas felizes;
Um mundo que já não existe pra mim.
E o fim do ano se aproxima,
Como um presságio mal fadado.
E a clarividência do fracasso
É o filme que eu vejo nos olhos meus,
Toda vez que o despertador anuncia uma nova eternidade.